Ontem, 14 de agosto, o PSOL concedeu justíssima homenagem a Florestan Fernandes pelos 15 anos de seu falecimento, uma iniciativa mais do que adequada num país que ainda desvenda a relação entre política e conhecimento.

O PSOL se posiciona desde a sua formação, há cerca de cinco anos, como uma espécie de "PT autêntico", um grupo que preserva suas convicções.

Comunicação está em tudo e além da homenagem, em si louvável, é como se o partido estivesse também nos dizendo: "Nós herdamos a tradição de Florestan, do PT nós herdamos o que ele tem de bom". Sem dúvida é algo inspirador mas não é fático.

A sustentação deste tipo de discurso pode ter pelo menos duas causas: uma visão romântica e utópica da política ou uma estratégia de posicionamento friamente calculada, a fim de conseguir a adesão de eleitores incomodados com as contradições do poder. O comportamento do PSOL de hoje foi o comportamento do PT de anos atrás. Legítimo: exercer o contra-ponto faz parte do processo democrático.

Aqui um parêntese: o PSDB, certamente, ressente-se de não ter feito ao longo do tempo oposição consistente ao governo petista. Esta omissão contribuiu também com a construção do "mito Lula".

A política, que já foi definida de diversas formas, é também a arte do possível, portanto a arte do contraditório. Os grupos políticos inevitavelmente expõem suas contradições quando chegam ao poder, quando chegam ao governo. Neste momento prevalecem, segundo Max Weber, as "razões de estado". Neste momento o governante depara-se com novos cenários e com dificuldades não previstas ou mal calculadas. Em síntese: propor é muito diferente de fazer.  

Não estamos falando aqui de "estelionato eleitoral", a ação de prometer e não cumprir. Nem muito menos de "marketismo", como bem definiu o Prof. Rubens Figueiredo: a apresentação de propostas irrealizáveis, exagerando na ação de marketing eleitoral. Estelionato eleitoral e marketismo são problemas éticos. Estamos falando racionalmente da diferença entre planejar e entre executar o planejamento. 

Na eleição usa-se a propaganda em sentido estratégico: a um candidato cabe apresentar e descrever o sonho de dias melhores. O candidato, naturalmente, só fala bem de si mesmo e do que defende. Questionar a consistência de suas propostas cabe aos seus adversários, aos formadores de opinião, à sociedade civil organizada, à imprensa. Por isso a exposição de idéias, o debate e o embate são fundamentais.   

Estas são noções importantes para entendermos que a eleição é um momento meio mágico, um momento de envolvimento das pesssoas, um momento de juntos sonharmos acordados. Será escolhida a proposta mais sedutora, mais envolvente e que tenha como retaguarda, entretanto, um mínimo de consistência para dar segurança à decisão do voto.

Portanto, tenhamos em mente para não sermos desavisados: dificilmente um plano de governo será executado por completo ou da forma que foi apresentado. A questão central é se o grupo que chega ao poder mantém a legitimidade de sua ação ao longo do governo. A eleição é apenas o ponta pé inicial do jogo da democracia.


Aurizio Freitas
SÓCIO-DIRETOR DA MP&CIA
DIRETOR DA ABCOP NO ESTADO DO CEARÁ

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Categoria: Eleições 2010

Que a eleição de 2010 tem suas peculiaridades, estamos constatando já há pouco menos de um mês, mas à medida que ela avança é possível constatar mais algumas, desta vez nada empolgantes.

A cada dia, mais um dos inúmeros candidatos aos cargos disponíveis nessa eleição, "aparece" com seu material publicitário nas ruas e uma constante pode ser observada: os slogans são inspirados na campanha de Obama. Alguns usam a idéia de variadas formas, "O Ceará pode mais", "Pra fazer mais e melhor", "Juntos podemos mais" e etc.

Mas hoje eis que me deparo com um adesivo que traz o seguinte slogan de um candidato a deputado estadual: "Sim, nós podemos"! Exatamente IGUAL ao do candidato americano (talvez caiba até uma reclamação de direito autoral,rs).

Como consultora em Marketing Político começo a pensar... estamos em meio a uma crise de criatividade ou esses slogans estão sendo sugeridos por um assessor ou cabo eleitoral (muitas vezes bem intencionado, mas sem conhecimento técnico) ou pior, pelo próprio candidato, que às vezes só "acha bonito"?

O que me preocupa é que as duas opções são perfeitamente possíveis e revelam, em pleno século 21 o desleixo dos políticos com algo que eles almejam como profissão. Uma campanha é como um empreendimento e como tal deve ter planejamento, responsáveis por sua execução e um chefe. Todos bem preparados.

Essa sucessão de cópias me lembra a fala de um amigo que se aventurou uma vez no papel de candidato. Ele dizia sempre: "...para exercer qualqer cargo ou profissão temos que ter qualificação condizente com tal cargo, por que os políticos podem exercê-lo sem saber de absolutamente nada?"

Fica para vocês a reflexão...

P.S.: me avisem se virem mais um "Obama" cearense, vou contabilizar para um artigo futuro.

 

Categoria: Eleições 2010

A dinâmica eleitoral apresenta questões peculiares esse ano.

Podemos enumerar a "concorrência" da Copa do Mundo, que leva a atenção do cidadão/ eleitor para longe do cenário político e torna qualquer ação por partes deste, perigosamente propensa e ser entendida como oportunista. Portanto, temos efetivamente, 03 meses de campanha pública, uma verdadeira corrida contra o tempo.

Temos ainda a possibilidade do uso da internet na comunicação com o eleitor. Mas como usar todo esse "poder" da comunicação em tempo real? A escolha detalhada dos públicos e das mensagens torna a estratégia segmentada quase em infinítas possibilidades, trazendo um desafio produtivo aos estrategistas.

De um ponto de vista não tão animador, temos o fato de estarmos em uma disputa esvaziada de propostas e projetos políticos abrangentes. Infelizmente esse fato irradiou para as disputas estaduais, onde se fazem alianças quase absurdas entre partidos que não tem absolutamente nenhuma identificação histórica e propositiva.

É fato que o voto no Brasil não é ideológico, mas agora os partidos e a política parecem também não mais ser. É preciso pensar em democracia, em ideologia, em propostas condizentes com os anseios da sociedade e das sociedades que existem em cada estado ou município. Se nós não pensarmos, quem o vai?

O cidadão é obrigado apenas ao ato de votar, mas como irá fazê-lo depende de um conjunto de significados que influenciam suas escolhas, e não se deve fazê-las no "bem-me-quer/mal-me-quer".

 

Categoria: Eleições 2010

Lídia Cavalcante[1]

A ciência denominada Marketing Político, que nada tem de mágica, enrolação ou despolitização, ascende naturalmente ao cenário eleitoral em 2010. Poucos sabem que o Marketing Político perpassa todos os momentos da vida política, mudando um pouco de foco durante o período eleitoral e passando a se chamar Marketing eleitoral, pois se refere a um recorte temporal com dinâmica e regras próprias.

Eis que seu destaque atual se dá pelas declarações, em minha opinião equivocadas, da candidata Marina Silva e de seu partido, que declarou inicialmente não estar fazendo e que não vai fazer Marketing Político, e mais recentemente não querer um marqueteiro mandando na campanha.

Pois bem, na definição teórica o Marketing Político é compreendido como um modo de interagir com o cidadão e/ou eleitor baseado em estratégias de ação, planejamento de gestão e estudo do eleitorado, objetivando a sedução e adesão a um dado posicionamento e/ ou projeto político e sua efetivação. Nessa perspectiva, a abordagem não é dada segundo a máxima “vender o candidato como um sabonete”, trata-se do estabelecimento de uma relação permanente do político/candidato com seu eleitor. E ao contrário do que se pensa, lanço mão das palavras de Jorge Almeida (2002) para deixar claro que o papel do Marketing Político não é um empecilho à clareza das ações e informações disponíveis durante uma campanha.

 

[...] a utilização das técnicas de marketing político é imprescindível na política

contemporânea, independentemente do caráter social e político-ideológico das forças políticas em jogo, mas a utilização dessas técnicas não leva necessariamente à despolitização da política (ALMEIDA, 2002, p. 20)[2].

 

Esclarecidas as questões, será mesmo que os candidatos não quer estabelecer essa relação qualificada com o eleitor?



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing político

[2] Almeida, Jorge. Marketing Político: hegemonia e contra-hegemonia, 2002.

Categoria: Marketing Político

Lídia Cavalcante[1]

 

Comunicar é o exercício da troca de mensagens entre indivíduos. Mensagens de natureza pessoal, social, política, econômica, ideológica, cultural ou simplesmente cotidiana.

Desde o início de nossa vida biológica e social, somos “obrigados” a nos comunicar, seja na forma de sons indefinidos, gestos ou com a linguagem propriamente dita, e é dentro desse conjunto de necessidades que nascem os discursos como tradução das lutas ou sistemas de dominação dos quais fazemos parte. O discurso é essencialmente um ato político, pois está sempre transmitindo um posicionamento e promovendo uma reflexão por parte de quem o ouve. Muito se reduziu sobre a forma, a natureza e a função dos discursos chegando a torná-los sinônimo de “chatice” ou tempo desperdiçado.

Muito se pode apreender de um bom discurso – tendências da sociedade, padrões de consumo, questões críticas do cotidiano e particularidades de determinados segmentos sociais. Ressalto que o bom discurso não é aquele longo, rebuscado e repleto de enaltecimentos pessoais; é acima de tudo uma fala objetiva, clara segundo a linguagem e a cultura do público ao qual se direciona e consistente com as necessidades reais da sociedade. Apesar da proclamada “chatice” dos discursos, tem sempre uma parcela significativa que continua a ouvi-los (ainda bem) e baseia seus posicionamentos, escolhas e ações em alguma identificação com eles.

Uma sociedade que valoriza a comunicação necessita constantemente de discursos para manter a “humanidade” das idéias circulando e promovendo interação, pois é assim que mantemos a confiança e continuamos a produzir e reproduzir conhecimento, poder e participação.

 



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Comportamento Eleitoral

Lídia Cavalcante[1]

 

Quando se fala em poder vem à mente dos cidadãos os políticos, seus cargos, privilégios e jogos controversos. Ocorre que o poder é algo bem mais complexo e interessante do que isso.

Convencionou-se chamar de poder “a habilidade de um indivíduo ou grupo conseguir a submissão de outros ao seu propósito” (Galbraith, 1984)[2], e essa definição aplica-se a qualquer tipo de poder, seja político, econômico, religioso ou familiar. Em se tratando de política que, Aristóteles dizia que esta era “a arte do bem comum”, e o poder é o pilar essencial de seu exercício, mas não vem de graça ou com a posição que o indivíduo almeja como muitos pensam. Que Aristóteles possa perdoar, mas o bem comum deu lugar ao poder como fim último da disputa política, e para obter sucesso nessa disputa é necessário que se busque as fontes do poder.

Em nossa cultura política conhecemos bem e até exaltamos a primeira fonte do poder, que é a personalidade. Quem disputa o poder deve ter características específicas e atitudes fortes para que possa submeter outro ou outros a seus propósitos. Caso tenha falhas nessa primeira, poderá ainda disputar munido da segunda fonte, que é a propriedade e, de forma mais sólida pode-se fazer parte de uma organização que lhe garanta um cenário favorável à disputa e ao exercício do poder.

As três fontes podem e devem ser exercidas em conjunto, visto que vivemos em uma sociedade capitalista, na era da informação e imagem, e somos regidos pelos princípios da democracia institucional.

Em certa altura da literatura e da prática política, o conceito antigo de poder confunde-se com o conceito moderno de hegemonia. Não se pode dizer que ambos sejam a mesma coisa, nem que sejam completamente diferentes, pois se pode considerar a hegemonia uma manifestação do poder condicionado. Basta entender a hegemonia “enquanto a capacidade revelada por um ou mais grupos sociais de dirigir outros grupos sociais através do consentimento” (Gramsci, 2002)[3]. Sua definição está dentro da definição de poder, mas de forma bem específica quando ao tipo e a forma de exercício desse poder.

 A questão da atualidade é que o poder não é apenas o poder das instituições, a política se faz em vários ambientes (reais e virtuais) e qualquer indivíduo pode exercê-lo de forma abrangente ou segmentada. Como dito anteriormente, vivemos em uma sociedade capitalista, regida pela informação e pelos princípios da democracia, portanto as formas de exercício do poder tiveram que ser “redefinidas” e é nesse contexto que o discurso da hegemonia aparece como elemento “democratizador” do poder, pois pressupõe que as diversas esferas da sociedade estejam envolvidas nas discussões e escolhas, exigindo maior dedicação às estratégias de convencimento, pois a persuasão exercida por um determinado grupo é igualmente contradita pelo grupo que defende posição contrária.

E é a partir daí que se percebe a riqueza do antagonismo na sociedade e seu desafio para o exercício do poder.

 

 



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing Político.

[2] Anatomia do poder (Keneth Galbraith).

[3] Cadernos do cárcere, vol. 3 (2004).

Categoria: Comportamento Eleitoral

Lídia Cavalcante[1]

 

Século XXI, era da informação e das redes sociais, o mundo através da internet. Essa é a sociedade na qual nos relacionamos, consumimos, trabalhamos e enfim, vivemos.

Desde os primórdios da civilização - nas cidades precursoras das ciências, das artes e da política - informação é estratégia e quem a possui tem o poder de decidir e a prerrogativa de submeter quem não a tem e, portanto, na história dessa mesma civilização vimos o monopólio da informação ser usado para perpetuar os status quo vigentes em cada época.

Nas últimas décadas, porém, o advento da internet e a difusão da globalização como modelo de organização do mundo, transformaram a informação em algo acessível aos diversos setores da sociedade e em diversas partes do mundo. Apesar disso, o monopólio da informação é algo tão real quanto o era em séculos atrás, pois ela continua sendo estratégica e, portanto direcionada para os interesses de quem a detêm.

Como parte dessa manobra de poder e estratégia, a mídia assume papel central na construção da imagem dos líderes políticos, construindo significados e conhecimentos acerca da realidade. Empregada de forma mais ampla a partir da década de 1990, com o aumento da importância da comunicação de massa, a palavra mídia acaba sendo relacionada com seus diferentes veículos (visual, falada ou escrita) e constituindo um conjunto de instrumentos que promovem uma desterritorialização da informação, nos permitindo “estar”, “conhecer” e “interagir” em diferentes tempos e espaços simbólicos.

A hegemonia da televisão como meio de comunicação de massa, traz ao cenário um elemento de peso na relação política e comunicação através da mídia, fato exemplificado com as eleições presidenciais de 1989, na qual Collor teve sua imagem criada e difundida essencialmente por esse meio, transformando a informação em um grande espetáculo de imagens.

Têm-se mais um desafio à frente, no que concerne o poder sobre a informação e o uso da mídia. A internet torna as imagens palpáveis e modificáveis e as informações nunca são definitivas, estão sempre passíveis e comentários em tempo real.

É esse o desafio e o espetáculo da comunicação política no século XXI: “manter a fidelidade e a credibilidade da informação da origem à fonte com estratégias adaptáveis à velocidade de circulação das mesmas”.

               



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Marketing Político

Lídia Cavalcante[1]

 

Em meio a uma das várias leituras sobre comportamento, a partir do foco das microtendências, me deparei com um artigo intitulados “Canhotos à solta”, que falava sobre o aumento percentual de canhotos nos Estados Unidos e no mundo.

Inicialmente parecia apenas mais um daqueles estudos que não dizem nenhuma novidade (principalmente para canhotos como eu), relatando a dificuldade para manusear objetos, preconceito com a diferença, etc. No desenrolar dos dados e na conclusão da discussão, o autor propõe uma reflexão sobre o modelo de sociedade que desenvolve os canhotos, uma sociedade mais liberal, na qual os pais aprendem com os filhos e estimulam o desenvolvimento de suas habilidades.

Por fim chama a atenção para o fato que, em breve, poderemos utilizar o percentual de canhotos como indicador para avaliar o grau de abertura e flexibilidade de uma sociedade. Essa discussão me chamou a atenção, não só por eu mesma ser canhota, mas principalmente por tratar de um assunto particular e da forma como isso influencia o coletivo. Essas são o que se pode chamar de microtendências, ou seja, pequenos fatores aparentemente isolados no tempo e no espaço social e que são capazes de exercer influência positiva e negativa a partir de determinados fatos.

 Dentro dessa linha de reflexão, pode-se concluir o que bem poderia ser o conceito de classe em um cenário contemporâneo, ou seja, pequenos grupos de pessoas que compartilham experiências comuns podem se sentir cada vez mais atraídas para lutar por seus instintos. Essa realidade já está bem próxima de nós (embora bem disfarçada) e salta aos nossos olhos a cada dois anos, quando “escolhemos” nossos representantes políticos, ao nos surpreendemos (ou não) com os resultados das pesquisas eleitorais e das urnas, que revelam o que queremos que permaneça, o que não encontra mais lugar na sociedade e o que queremos viver daqui para frente.

É interessante perceber as mudanças na sociedade e como podemos fazê-las aparecer através de um gesto (o voto para determinado candidato) pois o 1% não representativo a que se referem as microtendências, possuem cada vez mais influência com o livre fluxo da informação possibilitado pelas mídias como a internet.

 



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Marketing Político

Lídia Cavalcante[1]

Há discussões teóricas longas sobre a natureza objetiva ou subjetiva do voto. Ao se fazer uma memória do comportamento eleitoral brasileiro, pode-se identificar “padrões” nas motivações para o voto, tais como: personalidade, favores, compra e venda, coerção, etc. Esses padrões reforçam a idéia de que o ato de votar é orientado em grande parte pela subjetividade, ou seja, pela maneira como cada pessoa vê sua realidade e julga ter seus interesses atendidos por determinada proposta. A sociedade da informação em que vivemos, produz e reproduz pessoas com acesso amplo a dados e, embora a totalidade da sociedade não tenha acesso direto e homogêneo à tecnologia, também sofre influência secundária da mesma, pois o que é veiculado nas mídias passa de pessoa a pessoa em conversas particulares ou coletivas.

                Nos anos 2000, o voto de orientação ideológica não é mais definidor do cenário político, pois a escolha do representante apresenta-se individual e baseada nas tendências da sociedade, nos padrões de comportamento de micro-segmentos.

                Grupos que representam porcentagens mínimas em relação ao todo, mas que revelam posicionamentos hegemônicos em seus círculos acabam por constituir o novo perfil do eleitorado, que é heterogêneo, informado e crítico, pois discute seu cotidiano entre os que se identificam com questões comuns.

O voto em personalidades, característico da cultura política brasileira, é agora definido quase na proporção “um a um”, em que o candidato deverá diversificar seu discurso a fim de que possa atingir a maior parcela possível dessa heterogeneidade dos eleitores.

Estamos vivendo e votando em um momento histórico e político caracterizado por uma massa de cidadãos/eleitores informados, alertas, relativamente instruídos e embasados, que nem de longe representam os “tolos” que as lideranças alienadas muitas vezes teimam em crer. Porém, convém continuar observando por que nossos representantes ainda não assumiram posturas mais qualificadas para atender a esse “novo eleitor” que vem se construindo.

 



[1] Cientista Polítgica com pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Marketing Político

Lídia Cavalcante[1]

 

Dentro da euforia de uma nova ferramenta de diálogo entre eleitores e políticos, a internet domina o cenário eleitoral de forma quase inédita. Muito tem se falado no espelho do fenômeno OBAMA, nos benefícios dessa relação “instantânea” com o eleitor e da liberdade virtual.

Vale abrir os olhos, por parte dos estrategistas e dos eleitores, para as pequenas armadilhas que a internet esconde. Apesar de, do ponto de vista da legislação, a internet ser um terreno de manobra estratégica mais “livre”, sua característica essencial, que é a velocidade da informação, impõe um desafio gigantesco ao modo de fazer política (e campanha) no Brasil.

Em um país de dimensões continentais, onde a concentração de renda e a desigualdade social o tornam substancialmente heterogêneo, pressupor que a internet pode ser o elemento decisivo na escolha do eleitor é ignorar o princípio básico da conjuntura. A internet como ferramenta, torna-se mais um elemento experimental nas técnicas que compõem a Ciência eleitoral, mas como tal (na condição de experimental), precisa que os estrategistas desenvolvam métodos e utilização e verificação, criem elementos de comunicação específicos para cada segmento (o twitter exige frases curtas e objetivas, o Orkut exige diálogos, o youtube exige variedade de imagens, etc.).

Não é tão simples como colocar a frase: ...”visitei cidade tal e falei de tal assunto...”. Nossos candidatos precisam de uma “imagem virtual”, que obedece às mesmas regras da real, pois não pode e não deve ser falseada ou forçada.

Sempre que vejo uma matéria que fala sobre o uso da internet nas eleições como mais uma "roda" que foi inventada, me pergunto: “como estão sendo aferidos os resultados da estratégia no mundo virtual? e que estratégias estão sendo traçadas?”. Me parece que mais "um brinquedinho novo" que precisa de cuidado, pra não quebrar.

Eis aí mais uma questão para as próximas conversas aqui no blog.



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing político.

Categoria: Eleições 2010

Lídia Cavalcante[1]

Nos meandros da política, segundos pensadores como Kant, Weber e Maquiavel, a ética assume uma roupagem diferenciada daquela que se refere ao convívio social e as relações pessoais nas diferentes partes da sociedade.

Essa diferenciação deve-se às esferas paralelas em que um político se encontra ao mesmo tempo, suas convicções pessoais e a convivência coletiva, que dão o tom da promessa e da realidade.

Em uma eleição, essas esferas são exacerbadas, pois esse é o ambiente em que as questões coletivas em muitas vezes estão à frente das convicções sociais (sem, no entanto superá-las). Um candidato não é, e não deve ser, uma entidade fabricada para se encaixar em um modelo distante da realidade, ele deve possuir, em suas convicções pessoais, elementos que reforcem os elementos coletivos que irão fundamentar sua plataforma eleitoral, sob pena de tornar sua atuação política insustentável.

Um dos maiores desafios do marketing político e eleitoral enquanto uma ciência é trabalhar com essas esferas paralelas que muitas vezes não são entendidas pelos próprios políticos. É fundamental que o cidadão/ eleitor consiga apreender, por meio das ações e informações da campanha, que existe um propósito no candidato muito embora no campo da política as razões que envolvem a convivência coletiva não permitam que os planos sejam seguidos à risca.

Não se trata de uma justificativa para as ações, algumas vezes criminosas, de muitos políticos, trata-se de entender como funcionam as “realidades” no campo onde as paixões humanas encontram terreno fértil para o descontrole e apesar de sermos todos “animais políticos”, segundo Aristóteles, somente quando se exerce a política como profissão é que se pode ingressar nesses dois mundos paralelos e experimentar os dois campos da ética. Vale pensar sobre isso na hora da escolha.

 



[1] Cientista política com pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Eleições 2010

Lídia Cavalcante[1]

Desde a instituição da democracia, todo cidadão em conformidade com as regras legais, exerce seu “direito” de escolha através do voto. De acordo com a regulamentação das Constituições, a cada dois anos são realizados os pleitos, majoritário e proporcional, alternadamente.

Ao longo de mais ou menos 180 anos de vida eleitoral no Brasil - caracterizados por períodos com eleições diretas e indiretas (simultaneamente), a instituição da primeira lei eleitoral em 1822 e do voto de cabresto ao voto eletrônico, passando pelo voto censitário, voto baseado na renda, na idade e na escolaridade - tem-se nas diferentes partes do Brasil e do mundo democrático a obrigatoriedade de “consultar” os cidadãos a respeito de seus representantes, é esse o princípio da cidadania e da democracia, a participação (ainda que ínfima).

O que o ato de votar significa no cotidiano político e social?

O voto é um mecanismo da democracia indireta ou representativa, na qual os cidadãos elegem representantes para discutir seus problemas e defender posicionamentos em instituições próprias como as Câmaras, Assembléias e Casas Presidenciais, essa é a definição padrão. Na linguagem do cidadão significa ir à urna, digitar ou assinalar números e esperar que tenha sido a melhor decisão, correto?

Em parte sim, mas o que o leva de casa ao local de votação é um processo bem mais complexo baseado em programas eleitorais assistidos, notícias lidas, pesquisas bem ou mal entendidas e conversas entre amigos.

O voto é concebido como gesto de identificação. Identificação com a imagem que o político/ candidato mostra, com o modo como a sociedade é apresentada durante a campanha, com as propostas que atenderão as questões básicas ou com uma ideologia.

Cultural e antropologicamente falando, somos seres de vínculos e na política esses vínculos se manifestam como uma espécie de necessidade, a necessidade de que os meus questionamentos e as minhas idéias estejam presentes no discurso ao qual eu irei vincular minha escolha, ou seja, meu voto.

 



[1] Cientista Política pós-graduada em Marketing Político.

Categoria: Eleições 2010

Lídia Cavalcante[1]

 

Essa eleição pode ser abordada de vários ângulos, a primeira que Lula não participa, uma eleição plebiscitária, dificuldades de composições partidárias, etc. O fato é que é interessante observar que, até o momento, temos duas mulheres nas chapas que disputam a Presidência da República (ainda precisamos aguardar para saber se teremos mais alguma na disputa ao cargo de presidente ou de vice), e esse fato não pode e não deve ser ignorado, posto que as mulheres ao representarem a maior fatia do eleitorado, são também uma fatia com características complexas e nada corporativistas.

Apresentar-se como “mulher de fibra” ou primeira mulher no mais alto cargo do executivo federal, não basta, é necessário ter empatia com o perfil da mulher brasileira, que não é composto unicamente de mulheres de baixa renda sem escolaridade e alocadas em subempregos, ou de mulheres que trabalham muito com pouca remuneração, muito menos de mulheres multitarefa bem-sucedidas, mães, esposas, donas de casa etc.

É urgente que as candidatas (e os candidatos) contemplem em suas propostas de governo, uma agenda feminina objetiva e tangível, que hoje vai além das questões “domésticas” como educação, moradia, saúde. Estudos sobre o novo estilo de liderança (chamado por alguns de “liderança feminina”) é baseado em participação, colaboração e responsabilidade compartilhada, e não estou vendo muito desses elementos inclusos de forma objetiva no discurso dos candidatos, pelo menos até agora.

Torna-se cada vez mais complexo o caminho para o convencimento do eleitorado, e a figura da mulher candidata, só por ser mulher não torna essa complexidade mais amena. Não estou desprezando a capacidade crítica dos homens, afinal eles vivem na mesma sociedade ajustados às mesmas regras. Estejamos atentos para as mudanças constantes, elas são valiosas.

 



[1] Cientista política com pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Eleições 2010

Lídia Cavalcante[1]

 

É interessante ver como nossos outrora representantes ou gestores, se digladiam silenciosamente nos corredores da “pequena política”. A eleição de 2010, muito além da tão proclamada face plebiscitária, nos coloca aos olhos um esvaziamento de figuras políticas capazes ou interessadas em liderar o país. É fato que o legislativo tem cadeiras mais “confortáveis” politicamente, e a maioria dos nossos políticos prefere permanecer acomodados nelas a se lançar em aventura perigosa que é uma candidatura ao executivo. Essa “acomodação” produz ainda disputas inéditas em que há apenas um candidato concorrendo, se é que se pode chamar essa situação de disputa ou concorrência.

Mas voltando ao silêncio, no senso comum sabe-se que os barulhos eleitorais só podem ser ouvidos nitidamente pelo grande “público” por volta do mês de agosto, quando as candidaturas estão à pleno vapor nas ruas, mas na posição de observadora mais cuidadosa, vejo muitas nuvens escuras, carregadas de vaidade e sede de poder, o que não seria nenhuma novidade mas, no cenário “viciado” para o qual nos encaminhamos nessa eleição, essas nuvens mascaram uma dificuldade de manter a democracia em seus princípios básicos.

Que tipo de direito de representação temos como cidadãos e, ocasionalmente eleitores, se esse direito está “simplificado” ao ato de decidir o que seria “menos ruim” para o país ou “por exclusão, aquele com quem me identifico um pouco”, e pior ainda, não decidir pois não há adversários?

Como observadora da política, acho divertido o momento eleitoral. Sim divertido! Quem não senta em frente à TV para conhecer algumas figuras estranhas que se apresentam? Ou rir de propostas sabidamente absurdas? Mas o divertimento é coisa séria também, pois os discursos dos candidatos devem apontar suas intenções para com o possível mandato e devem ser bem avaliados, pois o chamado “voto de protesto” que vem sendo defendido nos últimos anos como forma de eleger figuras esdrúxulas ou sem qualificação para os cargos a fim de expor a indignação com a qualidade (ou falta dela) dos candidatos, promoveu quadros de representantes fracos e oportunistas que tornam a imagem das instituições políticas cada vez pior.

Espero que, em 2010, alguns políticos aprendam a ficar calados, outros a falar mais, quem sabe assumirem mais seus posicionamentos e encorajarem uma agenda positiva para os governos. Enquanto isso, vamos observar atentamente as nuvens se dissiparem até agosto.

 



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Eleições 2010

Lídia Cavalcante[1]

 

Em meio a um emaranhado de conexões possíveis que rondam os corredores da disputa presidencial, eis que o Ceará (considerado politicamente um estado de gente pobre e ignorante, que vota com base nas “bolsas”) é um dos que ganha papel de destaque no palanque eleitoral.

 Ciro Gomes continua a bater o pé por sua candidatura à Presidência da República, na guerra de lances por seus votos, pôde-se ver que o PT demonstrou certo descontrole ao oferecer a Ciro várias propostas (governo de São Paulo, Ministério...) que ele prontamente negou em uma então válida, manobra de negociação.

Uma curiosidade me foi posta em uma coluna, lida há algumas semanas, que dizia que o potencial de votos de Ciro, no cenário em que ele sairia da disputa, é transferido diretamente à Serra e não à Dilma, como se pode pensar de imediato. Ao que se deveria essa identificação que o eleitor teria? Confesso que preciso avaliar melhor a tendência do eleitorado cearense para este pleito, pois essa afirmativa é no mínimo inquietante.

Nessas circunstâncias me vejo inclinada a admitir, o PSDB fez a jogada de “xeque” ao oferecer a Ciro a vaga no Senado por São Paulo, tentado “puxar” mais os votos do cearense para Serra e abrir um palanque no Ceará. Apostava que a jogada seguinte seria o “xeque mate” (do PSDB), pois o PT esqueceu-se de olhar o Ceará com os olhos de cearense.

Ocorre que, mais uma vez (como era de se esperar e não deveria acontecer), Ciro perde o controle de suas ações, verbaliza o imponderável, deixa cair de vez as cartas que trazia nas mangas e esquece qual a função de um partido e suas obrigações para com ele.

E assim o palanque eleitoral no Ceará continua a balançar lentamente, como uma rede embalando alguém pra dormir, mas estão todos bem acordados, tentado o melhor ângulo. Resta aguardar mais alguns dias para saber se esse bate pé do Ciro provocou alguma onda de choque ou se nem chegou a acordar ninguém.

 



[1] Cientista Política com Pós-graduação em Marketing Político.

Categoria: Eleições 2010

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