Ontem, 14 de agosto, o PSOL concedeu justíssima homenagem a Florestan Fernandes pelos 15 anos de seu falecimento, uma iniciativa mais do que adequada num país que ainda desvenda a relação entre política e conhecimento.

O PSOL se posiciona desde a sua formação, há cerca de cinco anos, como uma espécie de "PT autêntico", um grupo que preserva suas convicções.

Comunicação está em tudo e além da homenagem, em si louvável, é como se o partido estivesse também nos dizendo: "Nós herdamos a tradição de Florestan, do PT nós herdamos o que ele tem de bom". Sem dúvida é algo inspirador mas não é fático.

A sustentação deste tipo de discurso pode ter pelo menos duas causas: uma visão romântica e utópica da política ou uma estratégia de posicionamento friamente calculada, a fim de conseguir a adesão de eleitores incomodados com as contradições do poder. O comportamento do PSOL de hoje foi o comportamento do PT de anos atrás. Legítimo: exercer o contra-ponto faz parte do processo democrático.

Aqui um parêntese: o PSDB, certamente, ressente-se de não ter feito ao longo do tempo oposição consistente ao governo petista. Esta omissão contribuiu também com a construção do "mito Lula".

A política, que já foi definida de diversas formas, é também a arte do possível, portanto a arte do contraditório. Os grupos políticos inevitavelmente expõem suas contradições quando chegam ao poder, quando chegam ao governo. Neste momento prevalecem, segundo Max Weber, as "razões de estado". Neste momento o governante depara-se com novos cenários e com dificuldades não previstas ou mal calculadas. Em síntese: propor é muito diferente de fazer.  

Não estamos falando aqui de "estelionato eleitoral", a ação de prometer e não cumprir. Nem muito menos de "marketismo", como bem definiu o Prof. Rubens Figueiredo: a apresentação de propostas irrealizáveis, exagerando na ação de marketing eleitoral. Estelionato eleitoral e marketismo são problemas éticos. Estamos falando racionalmente da diferença entre planejar e entre executar o planejamento. 

Na eleição usa-se a propaganda em sentido estratégico: a um candidato cabe apresentar e descrever o sonho de dias melhores. O candidato, naturalmente, só fala bem de si mesmo e do que defende. Questionar a consistência de suas propostas cabe aos seus adversários, aos formadores de opinião, à sociedade civil organizada, à imprensa. Por isso a exposição de idéias, o debate e o embate são fundamentais.   

Estas são noções importantes para entendermos que a eleição é um momento meio mágico, um momento de envolvimento das pesssoas, um momento de juntos sonharmos acordados. Será escolhida a proposta mais sedutora, mais envolvente e que tenha como retaguarda, entretanto, um mínimo de consistência para dar segurança à decisão do voto.

Portanto, tenhamos em mente para não sermos desavisados: dificilmente um plano de governo será executado por completo ou da forma que foi apresentado. A questão central é se o grupo que chega ao poder mantém a legitimidade de sua ação ao longo do governo. A eleição é apenas o ponta pé inicial do jogo da democracia.


Aurizio Freitas
SÓCIO-DIRETOR DA MP&CIA
DIRETOR DA ABCOP NO ESTADO DO CEARÁ

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Categoria: Eleições 2010

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