Nas últimas semanas foi possível encontrar na imprensa nacional algumas dezenas de matérias e artigos sobre o “fenômeno” Tiririca, nome artístico do cômico cearense Francisco Everardo Oliveira Silva, candidato a Deputado Federal por São Paulo, pelo Partido da República-PR.

Nesse período, ele fora classificado como “cacareco”, “voto de protesto” e até como “culpa dos idiotas”(em “sentido grego”, diga-se de passagem, de acordo com um articulista). Ocorreu também que um dos candidatos a governador de São Paulo dirigiu campanha aberta contra Tiririca e, até mesmo, o candidato a governador apoiado por sua coligação proporcional pediu a retirada de seu programa eleitoral do ar (embora não tenha pedido formalmente para que fosse desfeita a coligação, beneficiária direta dos votos do ilustre palhaço). 

No dia 03 de outubro, Tiririca, de forma “espetacular”, elegeu-se como Deputado Federal tendo sido o segundo deputado mais votado do estado de São Paulo em toda a história, alcançando 1.353.820 votos.

Ele apresentou-se desde sempre na campanha como anti-candidato, defendendo “proposta nenhuma” exceto o seu próprio benefício, tendo como ideia central o slogan “pior do que tá não fica” e ridicularizando estratégias utilizadas por “famosos”, que pediam votos para familiares e amigos. Porém, a característica mais importante de sua candidatura não está nela mesma.

Assistimos nos últimos anos, no Brasil, a uma crescente ascensão política de esportistas, artistas, líderes religiosos e apresentadores de rádio e TV. Esta ascensão tem um aspecto marcante – o acesso de tais “neopolíticos” aos meios de comunicação de massa – e um contexto propício – a ampla desmoralização da atividade política, cujo ápice se expressou na atual legislatura do Congresso Nacional.

A combinação explosiva “acesso à comunicação de massa” e “crise política” seria, portanto, a responsável por este tipo de fenômeno: “ora, se o voto vale muito pouco nas decisões e não nos representa, vamos pelo menos prestigiar àqueles a quem temos afeto e nos fazem sentir bem todos os dias, seja através da torcida, da oração ou da diversão”.  O melhor de tudo: não há como barrar, proibir ou cercear a candidatura de qualquer cidadão ou cidadã que esteja em conformidade com a lei.  E que assim seja, para o bem da sociedade.

Quando o discurso despolitizado ganha muito mais espaço do que o debate político, já está mais do que na hora de se suspeitar que algo precisa ser modificado. De um lado, cabe aos políticos profissionais reverem suas formas de atuar porque a política está em transição e, no atual estado de coisas, alguns infelizmente não serão páreos para o Tiririca. De outro lado, os partidos brasileiros precisam ser renovados com a entrada em cena de novos e competentes quadros. 

Esse duplo movimento faz-se urgente e deve pautar-se na reinvenção da atividade política, tornando-a cada vez mais participativa e legítima, saindo dos gabinetes, ensinando à população sobre o exercício da cidadania e as leis (por incrível que pareça ainda não sabemos o básico), realizando a pedagogia do estado, abrindo as discussões, aceitando a fiscalização da sociedade, informando e comunicando com clareza, interagindo com grupos e pessoas através das velhas e das novas tecnologias também.    

Por fim, voltando ao “fenômeno” Tiririca, o desfecho deste espetáculo até que poderá ser trágico: Francisco Everardo Oliveira Silva deverá ser notificado pela Justiça de São Paulo na próxima quarta-feira, 13 de outubro, por conta de suspeitas em relação a comprovação de sua alfabetização. Independente do que venha a acontecer ele já escreveu de forma inusitada sua participação na política brasileira. Como canta Antônio Marcos, em “sonhos de um palhaço”: “vejam só e há quem diga que o palhaço é no grande circo apenas o ladrão do coração de uma mulher...”  

Aurizio Freitas
SÓCIO-DIRETOR DA MP&CIA
DIRETOR DA ABCOP NO ESTADO DO CEARÁ

 

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Categoria: Eleições 2010

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