Lídia Cavalcante[1]

 

Quando se fala em poder vem à mente dos cidadãos os políticos, seus cargos, privilégios e jogos controversos. Ocorre que o poder é algo bem mais complexo e interessante do que isso.

Convencionou-se chamar de poder “a habilidade de um indivíduo ou grupo conseguir a submissão de outros ao seu propósito” (Galbraith, 1984)[2], e essa definição aplica-se a qualquer tipo de poder, seja político, econômico, religioso ou familiar. Em se tratando de política que, Aristóteles dizia que esta era “a arte do bem comum”, e o poder é o pilar essencial de seu exercício, mas não vem de graça ou com a posição que o indivíduo almeja como muitos pensam. Que Aristóteles possa perdoar, mas o bem comum deu lugar ao poder como fim último da disputa política, e para obter sucesso nessa disputa é necessário que se busque as fontes do poder.

Em nossa cultura política conhecemos bem e até exaltamos a primeira fonte do poder, que é a personalidade. Quem disputa o poder deve ter características específicas e atitudes fortes para que possa submeter outro ou outros a seus propósitos. Caso tenha falhas nessa primeira, poderá ainda disputar munido da segunda fonte, que é a propriedade e, de forma mais sólida pode-se fazer parte de uma organização que lhe garanta um cenário favorável à disputa e ao exercício do poder.

As três fontes podem e devem ser exercidas em conjunto, visto que vivemos em uma sociedade capitalista, na era da informação e imagem, e somos regidos pelos princípios da democracia institucional.

Em certa altura da literatura e da prática política, o conceito antigo de poder confunde-se com o conceito moderno de hegemonia. Não se pode dizer que ambos sejam a mesma coisa, nem que sejam completamente diferentes, pois se pode considerar a hegemonia uma manifestação do poder condicionado. Basta entender a hegemonia “enquanto a capacidade revelada por um ou mais grupos sociais de dirigir outros grupos sociais através do consentimento” (Gramsci, 2002)[3]. Sua definição está dentro da definição de poder, mas de forma bem específica quando ao tipo e a forma de exercício desse poder.

 A questão da atualidade é que o poder não é apenas o poder das instituições, a política se faz em vários ambientes (reais e virtuais) e qualquer indivíduo pode exercê-lo de forma abrangente ou segmentada. Como dito anteriormente, vivemos em uma sociedade capitalista, regida pela informação e pelos princípios da democracia, portanto as formas de exercício do poder tiveram que ser “redefinidas” e é nesse contexto que o discurso da hegemonia aparece como elemento “democratizador” do poder, pois pressupõe que as diversas esferas da sociedade estejam envolvidas nas discussões e escolhas, exigindo maior dedicação às estratégias de convencimento, pois a persuasão exercida por um determinado grupo é igualmente contradita pelo grupo que defende posição contrária.

E é a partir daí que se percebe a riqueza do antagonismo na sociedade e seu desafio para o exercício do poder.

 

 



[1] Cientista Política com pós-graduação em Marketing Político.

[2] Anatomia do poder (Keneth Galbraith).

[3] Cadernos do cárcere, vol. 3 (2004).

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Categoria: Comportamento Eleitoral

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